Tanto quanto a prática clínica, a vida cotidiana mostra-nos incessantemente que os mitos, embora antigos e pertencentes a um outro contexto cultural e cultual, têm uma atualidade "impressionante". Enquanto imagens arquetípicas, são atemporais e a-culturais. (Continua)
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3 de dez. de 2011
Perséfone e outras mitologias
O mundo é de Hades
Morremos nós, simples mortais, ficam os nós, atemporais. Ficam as filhas, ilhas, em busca de um colo de mãe, fica a mãe-terra, e a que não mais germina, fica dentro de nós a menina. Morremos sós.
O escuro do mundo das trevas, para onde somos arrancados volta e meia: pesadelos, hospitais, loucuras temporárias, paixões imaginárias, viagens solitárias, delírios, um carro atolado na estrada de terra à noite, uma obsessão, um porre, um cartão de ponto, carnaval, coração que dispara instantes. Fora de órbita, fora do ar, fora de si. Amnésia. Gagueira súbita e fugaz, que paralisa a voz, sai de si, interrompe o pensamento lógico, lapsos, tonteiras, brancos, ausências, esquecimentos, desligamentos, mentiras aderentes, camas convalescentes, câimbras, comas, memória que turva, neblinas na curva, lembranças que falham, mãos que se atrapalham, pés que tropeçam, palavras que escapam, voz que treme, mãos que tremem, um degrau a mais na escada do metrô e caio de joelhos porque fui ler a filipeta da manicure com óculos para perto e o chão saiu de foco. E sonhos, sonos, sufocos, tudo pertence a Hades.
Quando me perco no escuro de mim mesma e combino com a realidade necessária que vou fingir aceitá-la, e que a terra é firme, o amor seguro, e que é justo pagar contas em dia, e que então tá.
30 de nov. de 2011
Quem tem dor tem culpa: Quíron, Prometeu, Atlas e eu
Quem tem dor tem culpa. Fui ferida acidentalmente por alguém que amo e a lombar doi por isso? Uma flexada envenenada atirada sem querer? Um nervo pinçado pelo bico da águia?
Hipernestesia e hiperritimia, sou uma senhora hiper, e hippie, mesmo que sofra. Nada me cura e não morro. Sou greia, envelheço como todo mundo. Sou Quíron, que trocou de lugar com Prometeu e descansou. Quíron foi transformado na constelação de Sagitário.
Então tá. Quero uma constelação só pra mim em troca desse prego que tenho fincado na coluna, esse bico. Eu também quis o fogo dos deuses porque nunca aceitaria uma vida medíocre, nem busco o conhecimento mas a alegria, a vida plena, a liberdade, e esta principalmente. É justamente a liberdade tirada o que mais doi aqui no vigésimo- segundo andar do Monte Cáucaso.
Pensam que eu sofro por causa das bicadas da águia? A águia também sofre e nunca escolheu seu destino. Ter que bicar alguém todo dia pode ser muito angustiante. Entretanto, se não fosse por isso Dona Águia não teria seus vinte séculos de fama. As correntes do Cáucaso doem mais que o bico da ave. O abismo pra se atirar ou voar livre, não há escolha, estou acorrentada.
Ter o fígado renovado todo dia ou empurrar a pedra de Sísifo montanha abaixo, me dá igual. Doer à toa. Que doa. Trata-se de um castigo renovado. Pedra rolando ou bico bicando. Mitololgia é uma mania.
É isso: a imortalidade é um castigo. Quem tem dor que não passa passa a ter medo.
Eu, qual Quíron, fui a ortopedistas, acupunturistas, ortomoleculares, neurologistas, reumatologistas, psiquiatras, fisiatras, homeopatas, (tudo no plural) fiz aplicação de ozônio, fisioterapias, hidroterapia, terapia, pilates, RPG e cromoterapia. Não tem jeito, foi flechada.
Quíron tinha a chaga da flecha, Prometeu o bico da águia. Para as Greias, a vida era o castigo, imortalidade, o pior de todos. Pediram vida eterna, não juventude.
Vida vira velhice. Como Oscar Niemeyer, e outros centenários, que vão se transformando em mortos-vivos. Entram em estado de decomposição respirando.

Atlas, também de castigo, teve que sustentar o céu para sempre nos ombros. Até o céu pode ser pesado, se for obrigado. Seu nome passou a significar "portador" ou "sofredor". Assim punido, Atlas passou a morar no país das Hespérides, as três ninfas do Poente: Eagle, Eritia e Hesperatetusa.
Hesperatetusa deve ter recebido esse nome de castigo.
Alguma besteira ela fez.
Eu também fiz de monte.
Alguma besteira ela fez.
Eu também fiz de monte.
Tudo fica meio Nelson Rodrigues: o homem não sabe por que está batendo, mas a mulher sabe por que está apanhando.
A morte pode ser um descanso, o fim do castigo, a libertação: o fígado que se recusa a regenerar-se, a pedra de Sísifo que não rola.
A Greia que morre de velha.
A águia vai voar alto e ser feliz enquanto Prometeu se livra das correntes e voa penhasco abaixo.
Tudo tem que ter um fim.
Mitologia grega em SE EU QUISER FALAR COM ZEUS. cLIQUE
28 de nov. de 2011
Mitologia: Se eu quiser falar com Zeus
Os mitos, na Antiguidade, eram considerados a
linguagem que os deuses usavam para ensinar a nós, pobre mortais, a arte de
viver e amar. Se procurarmos nos mitos
verdades científicas, perdem toda sua beleza e fascínio.
Clique para ver: www.seeuquiserfalarcomzeus.blogspot.com
Clique para ver: www.seeuquiserfalarcomzeus.blogspot.com
26 de nov. de 2011
Sísifo. O mito e a mulher pelada
Sísifo, teleatendimento e mulher pelada.
Sísifo traiu Zeus ao revelar uma de suas aventuras. Zeus, pra quem não sabe, é capaz de disfarcar-se de boi, chuva, e até no marido da pessoa para conquistar a deusa, ninfa ou mulher que achasse interessante.
Zeus enviou-lhe a morte, mas Sísifo conseguiu aprisoná-la. Ninguém morria mais.
Hades, deus do mundo subterrâneo dos mortos, ficou sem fila na porta. Seu reino não bombava mais. Apresentou queixa a Zeus. Zeus, como castigo, não só libertou a Morte, mas deu a Sísifo o mais terrível dos castigos: condenou-o a rolar eternamente uma pedra colina acima e, quando a pedra estava no topo, rolava de volta.
O trabalho de Sísifo é discutir a relação, ligar pra operadora, receber uma ligação do telemarketing, aprender a utilizar um programa novo e este rolar, ser substituído por outro mais moderno. Sísifo, em suma, é a busca eterna pelo novo e pela versão mais atual.
O abandono das tradições.
Só uma pessoa é capaz de interromper o trabalho de Sísifo: aquela criança que entrou numa imensa loja de departamentos e disse para a mãe: Olha, mãe, quanta coisa a gente nem precisa!
Zeus enviou-lhe a morte, mas Sísifo conseguiu aprisoná-la. Ninguém morria mais.
Hades, deus do mundo subterrâneo dos mortos, ficou sem fila na porta. Seu reino não bombava mais. Apresentou queixa a Zeus. Zeus, como castigo, não só libertou a Morte, mas deu a Sísifo o mais terrível dos castigos: condenou-o a rolar eternamente uma pedra colina acima e, quando a pedra estava no topo, rolava de volta.
Sísifo teria que empurrá-la para cima, vê-la rolar e repetir o procedimento. Uma espécie de trabalho alienado, onde a gente não sabe pra que serve o que estamos fazendo. Não serve pra nada.
Esse esforço sem sentido, de Sísifo, o que tem em comum conosco?
Sísifo, quando empurra a pedra morro acima, somos nós tentando acompanhar as modernidades da tecnologia ou comunicar-se com uma empresa prestadora de serviços. Quando você finalmente aprende a usar o Gmail ele muda de cara, a pedra rolou. Quando você é fera no Orkut, cria- o Facebook, e rola a pedra. Quando você tem que ligar para o teleatendimento, e desligam na tua cara ou colocam musiquinha. Disque um, disque dois, disque nove. Depois anotar aqueles números do protocolo, que não são alfanuméricos de propósito, pra gente desistir de anotar, tudo isso é Sísifo.
Sísifo é o trabalho alienado, a vida que cria necessidades em vez de satisfazê-las. Sísifo é o teleatendimento.
O trabalho de Sísifo é discutir a relação, ligar pra operadora, receber uma ligação do telemarketing, aprender a utilizar um programa novo e este rolar, ser substituído por outro mais moderno. Sísifo, em suma, é a busca eterna pelo novo e pela versão mais atual. O abandono das tradições.
1 de nov. de 2011
Você trocou de aparelho de celular e não sabe como ativar e desativarrecursos? Você perdeu um relacionamento e tem preguiça só de pensar em
começar tudo de novo? O proprietário pediu o apartamento e tem
preguiça só de pensar em começar a procurar outro, tudo de novo?
Colocou botox e o efeito passou? Mudou de emprego, de setor, e vai
começar de novo? Tudo isso é Sísifo.
Camus: Se Sísifo não encontrar algum prazer em empurrar morro acima
aquele pedregulho, está perdido.
Afinal, o que é uma academia de musculação?
Os amigos, mais que a família, são meu esteio, minha base. É certo quedou cambalhotas, tá até no filme, também coloco o pé no queixo, sou
uma senhora alongada.
Mas minha lombar doi doi doi aperta, repuxa, belisca, chamusca,
lateja, reflete, reverbera, uma dor que caminha, um prego que, qual
Cristo, me fura. Oscilo entre a raiva e o desespero. Sou capaz de
brigar porque tem fila no cartório. Sinto ânimo para isso. Não fiz um
escândalo porque estou deficiente e nem posso entrar na fila especial
porque minha cara é de queimada de praia, minha roupa é de coroa
jovial, mas no fundo dos meus olhos, os amigos percebem, e dizem: Hoje
você está com dor.
A maldição dos planos de saúde, que pagamos pagamos e quando
precisamos, demora demora. Se o plano de saúde fosse uma pessoa, eu
pegava na esquina. Mas é como a VIVO, que passa todas as minhas
ligações pro correio eletrônico e não pra mim, nunca pra mim, nem
quando estou ao lado do aparelho ligado.
Vivemos no mundo do telemarketing e (estou avisando) isso vai causar
doença. Atendimento eletrônico deveria ser proibido por lei e cláusula
pétrea. Guilhotina na Cinelândia! As empresas não querem mais pagar
funcionários, nos ligam em secretárias eletrônicas dique um disque
dois disque três e já estou pensando em outra coisa. O que que era o
disque um mesmo?
Multas milionárias para empresas que colocarem musiquinha no nosso
ouvido já tão castigado. Se for de mau gosto, bilionária, a multa.
Vivemos no mundo dos mortos-vivos. A polícia faz blitz e engarrafa
cinco quilômetros de estrada e ninguém sequer buzina. Quando buzino,
sou a doida. Doido são os que não se rebelam. Li, me contaram, ouvi na
TV ou sonhei: “Não me impressiona a maldade dos maus, mas o silêncio
dos bons”. Bons? E para que servem as pessoas que não se rebelam? Têm
utilidade na cadeira ecológica? Não creio.
Passeata pelo FIM dos Planos de Saúde que nos deixam doentes. Saúde de
povo é obrigação de governo. Meu amigo não tem plano de saúde, tem
aplicação e reserva para doença. Mesmo porque quando preciso de médico
bom, pago particular.
A lombar doi e não posso falar de Búzios me fingindo de saudável.
Seria cascata. Enganaria os meus quatro leitores. Causaria inveja nas
outras coroas que têm dor pra tudo quanto é lado. Enganando ser quem
não sou. Nem vem que já fui no ortopedista, no acupunturista, no
osteopata (que queria me hipnotizar), na fisiatra, nas homeopatas, nos
psiquiatras, na fisioterapeuta, no RPG, pilates, já fiz aplicações de
ozônio na minha coluna, já fiz tratamento de rejuvenescimento (não
fiquei boa e o médico morreu). Como é mesmo? Hidráulica, aquática?
Nada disso, hidroterapia. Chorava com as lágrimas afogadas na piscina.
Cheio de velhinhos com dor na minha turma.
Só gente MUITO velha. A conversa era: melhorou? Melhorou? Melhorou?
Nunca ninguém melhorava. Eu chorava porque achava que tinha chegado
meu fim.
Paguei o pacote e fui a duas sessões. Prefiro morrer em casa, em
Búzios, no jardim, apreciando as minhocas que não têm coluna
vertebral, a antiga espinha, invejando as cigarras que se esbaldam de
cantar e morrer sem se dar conta.
Nas sessões de hidroterapia, todos os velhinhos doem porque morrer dói
e acontece aos pouquinhos. A fisioterapeuta me colocava encostada
naquele buraquinho de onde sai água na piscina pra massagear minhas
costas. Por favor, isso faço na piscina do Fluminense ou da casa do
Carlos.
Como sofri, como envelheci naquela piscina pequena, morna, coberta, em
sol, apertada, cheia de idosos doídos, doloridos, desgastados, sem
assunto, sem humor.
Morreria por um comentário espirituoso em meu leito de morte.
O mundo é de quem foge. Fugir é uma arte, uma estratégia, um
meticuloso planejamento de vida. Agora mesmo, nesse momento, fujo da
dor, falando mal dela.
E sábado fugirei dessa cidade cheia de blitz, morros pacificados,
explorados, expostos hoje na mídia como um cartão de visitas. Por que
não pacificaram quando surgiu a primeira arminha de fogo, seus patetas
aproveitadores e safados?
Se lixam para quem mora lá e perde neto com bala perdida, os corruptos
ficam de olho na verba para os jogos olímpicos, para as copas do mundo
e por causa disso detesto natal, ano novo, copa do mundo, olimpíada,
futebol e tudo que institui ralo pra escorrer dinheiro público.
Obras, só se for de saneamento.
Vou pra rede, desligar celulares, desconectar computadores, troco
música por barulho de mata. Economizo em terapia, fico uma gracinha de
sandália havaiana e roupa de malha barata.
Um dia largo mão dessa cidade e enfio a mão na terra.
Já comecei a plantar umas mudinhas.
Os amigos, mais que a família, são meu esteio, minha base. É certo que
dou cambalhotas, tá até no filme, também coloco o pé no queixo, sou
uma senhora alongada.
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