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8 de mar. de 2012
6 de mar. de 2012
Geribá. Anos Oitenta
Geribá tem pôr-de-sol vermelho cintilante
que não morre entre edifícios.
E tem lua que a gente continua vendo
mesmo depois da curva.
E tem estrela cadente, e não tem pedido,
mas tem pedras no fundo do mar, que a gente vê.
Tem pastel de banana, e buraco na estrada, e caminho.
Tem verão e vodka,
e crianças que me ensinaram o atalho dos tamarindos.
Geribá tem carona e vizinho,
que a gente cochila na casa dele.
Tem dona Virgulina e seu Darci,
pipadágua, bombadágua, água fria, poça,
areia no lençol e vento.
E cachorro solto , e carrapicho e farpa.
E ouriço. E concha, e marimbondo e maré baixa e música.
Geribá tem meu pedaço menino
— que esqueceu de crescer — que brinca.
Tem meu pedaço de mulher descalça,
Tem meu pedaço de mulher descalça,
que só usa short e saia.
Gloria fumando no sol ao meio-dia
(Mil novecentos e antigamente) (Do livro:Sangria, GH)
2 de fev. de 2012
25 de dez. de 2011
Primeiro fim de semana da 2ª fase

Pernas, pra que te quero?
Inseto preso na telinha
Rita de Cássia Marinho de Abreu Orleans e Bragança na telinha, grilada.
Maria da Glória de Menezes & Menezes Vasconcellos Horta Orleans e Bragança na telinha, grilada.
Glória de Menezes & Menezes Vasconcellos Horta na telinha, sem grilo.
Tatu, i.e., tatto de Geribá
Autorretrato submerso
O voo e o nada, i.e., o nado.

Parada do orgulho gordo
Pedala Peró
Birutas com cabeça de vento
Motores, remos, todos morreremos
A vida secreta dos insetos
A natureza vive à nossa revelia
A vida acaba cedo e cedo temos que reinventá-la. Cumpri as tarefas: casa, carro, apartamento, filha, neta, diplomas, paixões, do amor e da carne.
Perco forças.
Não tenho vícios.
Já redesenhei esta senhora que invade meu corpo com mil penteados, cortes de cabelo, roupas. Não acertei redefini-la. Se eu me distraio, a jovem que fui me assalta e coloca megahair com permanente.
Revivê-la. Pinçar todo dia uma coisa boa do passado e regá-la. Aproveitar as obras no apartamento e rearrumar o armário, guardando apenas o que não doa.
É muito mais fácil captar imagens que palavras. Imagens nos surpreendem, estão meio prontas. Minhas palavras me doem. As fotos hoje em dia são de praias, paisagens, beleza, a vida secreta dos insetos.
Em algum momento do caminho fui perdendo as cores, sou meu próprio plágio. Eu as recobro num click.
Quando Pablo quase gritou: Olha! Uma tartaruga! Não consegui ver sua cabeça de primeira, tivemos que esperar, na Praia do Forno, até que ela viesse à tona respirar novamente. Tentei fotografá-la, mas há coisas no mundo que é melhor guardar a câmera, abrir bem os olhos e ver. Foi quase uma epifania. A natureza nos surpreende e maravilha. Insetos multicoloridos com elaborados movimentos e artifícios de defesa incríveis. Quisera eu mudar de cor na mata, poder fingir de morta, ter olhos nas costas para despistar ou nas asas, como algumas borboletas. Despistaria. A perereca mora dentro da bromélia e podemos fotografá-la todos os finais de tarde, sempre à mesma hora, quando ela sai, segura, para fazer seu passeio, dar seus pulos e conquistar seu rango. O macho mora ao lado, uma vez ela deu cria. A lagarta carnavalesca, a formiga de óculos fundo-de-garrafa, os insetos sem nome, minúsculos monstros de antenas, mil patas e estranhos comportamentos, a cobra verde que dança, equilibrista, o rola-bosta, Sísifo na grama, tudo documentado.
A natureza vive à nossa revelia. E agora posso ter tudo isso no quintal, igreja a céu aberto onde vislumbro um deus secretíssimo que se revela exibindo mil espécies, de plantas, de bichos, de ventos, de marés, de nuvens deformadas, formigas em marcha, cigarras ensurdecedoras, pássaros customizados, bicos vermelhos, tufos coloridos na cabeça, nas asas, nas penas. Se esperarmos por eles vão chegar sempre à mesma hora. A natureza tem hábitos, rituais, procedimentos.
Como as formigas são organizadas. Fotografar gaivotas quando chega o barco de pesca em Geribá de manhã bem cedinho é sempre uma alegria. Como crianças, que repetem a mesma brincadeira e ouvem mil vezes a mesma história com renovada alegria, assim fotografo as gaivotas elegantes e desconfiadas. Como as gaivotas são desconfiadas. Belas esganiçadas, não se pode ter tudo.
Meus amigos não gostam de matar insetos. Escondido, dou umas pisadas. Aranhas, besouros, abelhas, grilos, formigas, lagartixas, tudo deve viver, menos mosquitos. Esses, matamos com raquetes elétricas. Ou Detefon, eu disse outro dia, e riram porque Detefon é coisa antiga, assim como ODD pra lavar louça, erace para tirar olheiras, rouge para colorir bochechas, creme rinse agora condicionadores. Assim, renomeando, o mundo se transforma para que os velhos não o reconheçam e sintam menos quando chegar a hora do morrimento.
Já tenho malas no carro, compras, cadeiras de praia, barraca, água potável, brinquedos para a Isadora, que vai conhecer a casa nova da vovó. Orgulhosa, levo mudas de plantas, baldinhos e pás de praia. Esse é o mundo, minha neta. Juntas, vamos plantá-lo. Pena que três anos são muito pouco para conservar essa lembrança. Tirarei fotos, garantia. Um dia ela saberá. Conhecerá as árvores e flores pelo nome, e também os pássaros e as praias de Búzios, as mais secretas, de cor, uma a uma, lembranças do tempo da vovó e das histórias do paraíso hippie. Pena que acabou o movimento.


Fotos: Pablo Manuel Menezes e Glória de Menezes Horta
Cobra criada em Búzios
A vida secreta dos insetos
Rota de fuga
Búzios foi uma rota de fuga em mil novecentos e setenta e cinco, eu vinte anos, ex-noiva, família boa mas desajustada, lá encontrei o que perdi no paraíso e até hoje busco: estradas de terra, lampião a gás, confiança, velas, casas de pescadores na beira da praia sem perigo, portas abertas, muita juventude, muita mesmo, éramos muito muitíssimo jovens, o que nem sempre acontece com as pessoas, esse intervalo de tempo em que se é JOVEM.
No meu tempo SER JOVEM era UMA COISA. Tínhamos direito a tudo, a cometer erros, cometer aventuras, jovem servia para isso mesmo: transgredir, transar, rir, criar, pegar a estrada, abrir caminhos.
No meu tempo de mocinha todo mundo fumava e bebia, e não fazia mal (ainda?), o sol não tinha ozônio, era sol mesmo, e éramos todos bronzeadérrimos. Hoje a moda é ser branco.
Não quero implicar porque as uvas dos jovens de hoje estão verdes, nem tenho inveja assim tanta, tenho inveja de mim mesma, do que fui. E como eu era uma jovem muito solta, mas que estudava e tinha juízo, amadureci sem vícios, e começo a envelhecer de novo, se eu acreditasse em reencarnação. Digo isso porque nasci com muitos conselhos guardados na cabeça. Desde muito cedo minha mãe me obrigou a aconselhá-la e eu obedeci. Desencavei, gostei e peguei mania. A vida dos outros sempre me pareceu clara, simples de resolver, nem que fosse com um: Fuja!
Como diria meu pai (técnico de basquete), sempre fui craque (não crack) em escapulidas. Escreveu, não leu, eu escapava como água entre os dedos: de ônibus, de carro ou de carona. Já fugi de pai, de mãe, de namorado, de amante, de casa alugada, de emprego. Quando eu digo FUGIR, não é sair às escondidas, de repente, no escuro e nunca mais voltar. Há fugas discretas, paulatinas, preparadas com muita antecedência e realizadas devagar. Quando saí da casa da mamãe pra morar em Copacabana com meu pai, fui levando minhas coisas aos pouquinhos. Quando minha mãe se deu conta, eu já não morava mais lá.
A Aldeia de Geribá, entre pescadores, jovens, violões, muita música, muita farra, foi meu ponto de fuga, o ponto cego onde ninguém me via. Lá fui feliz, mesmo que no Rio de Janeiro eu não fosse. Lá, não usava sapatos, quer mais que isso?
Os amigos começaram a envelhecer muito cedo, a morrer até. Búzios emancipou-se, hoje é um paraíso para o turismo internacional, mas pra mim é como casa de mãe: lá me sinto nova de novo. Nem fico reparando que aqui “não tinha nada disso!”, isso é coisa de velho e eu tenho horror a ficar velha, então evito esses dizeres envelhecidos. Eu disse “evito”, não disse que não falo. Claro que, sempre que alguém me sugere conhecer a Praia da Ferradurinha, eu digo que nasci nela em mil novecentos e setenta e cinco. Nem vem. Conheço balzaquianos que nasceram lá, no tempo em que se transava muito. Lá.
Durante anos eu fui pra Búzios TODO FIM DE SEMANA, mesmo com chuva. Eu e a Beth Barata íamos pra praia de garrafinha de conhaque de mel numa mão e raquete de frescobol na outra, quer mais jovem que isso?
Tem gente que, hoje, olha pra “Glória de Búzios” de soslaio, crente que eu vou tomar conhaque de mel e sair jogando frescobol na chuva, gente desatualizada. Envelheço, tenho apartamento, carro, filha, neta, cabelos brancos, amigos mortos, amigos velhos, e novos amigos. Posso ter mil defeitos, mas sempre tive JUÍZO. Tanto tenho, que acabei de comprar uma casinha em Búzios, hoje-agora, como diz minha neta, em sociedade com um amigo meu que mora em Brasília, o Márcio. Tem gente que acha que isso é uma loucura: comprar, em outubro, uma casa com um cara que conheci no réveillon. E financiada pela Caixa. Trata-se de excesso de juízo. Adoro ser meeira, já que nunca consegui casar direito.
“Juízo” é um conceito muito importante, mas saiu de moda.
Hoje é um dia especial porque estou conseguindo escrever. A imagem havia me roubado as palavras. Óbvio que é muito mais legal trabalhar uma bela imagem no photoshop do que escrever que envelheço todo dia e que isso não me sai da cabeça.
Já que não tem solução, aceito envelhecer todo dia. A contragosto, mas aceito. Mas aceito envelhecer lá, na rede da minha casa própria em Búzios, que não é na Aldeia de Geribá, onde conheci a mocidade, é na Baía Formosa, que não perdeu a formosura nem com o passar desses anos todos na rua da vida, que tem mão única e destino certo.
Não aceito meus cabelos brancos, customizo. Pinto só metade da cabeça porque parte de mim é velha, a idade mora no pescoço. A outra metade é tão divertida e bem disposta. E tem forma de mulher ainda, deixo então mechas bem negras, para que eu nunca me esqueça de quem eu fui.
Quem fui mora em mim, e nesse dentro tem uma luta de mulheres de todas as idades, luta inglória, já sabemos o final. Sempre que eu escrever sobre isso vocês me obriguem a mudar de assunto, estou viva.
Tem gente, da antiga, que diz que não vai a Búzios porque é deprimente. Papo furado, como se dizia. Olhem essas fotos e me digam se Búzios pode ser deprimente. Não pode. A beleza está lá, documentada nas fotos que agora me seguem como um anexo.
Tenho mania de blogs: blog da neta, de fotos, de filmes, de contos, de contos infantis, de LIBRAS, de acessibilidade. Não tem como misturar tudo isso. Cada coisa é cada coisa e cada coisa tem seu blog. Esse, que criei hoje, vai guardar as imagens belas de Búzios em dois tempos. Fotos fresquinhas e fotos escaneadas.
No meu quarto tenho um baú de fotos de papel que ocupa muito espaço. Se eu confiasse na nuvem, faria cópias digitalizadas e rasgaria o resto. Sem contextualizá-las, o baú será um amontoado de imagens sem sentido: os guardados da vovó. Tá vendo? Rodeio, rodeio e já estou falando, nas estrelinhas (como diz o sobrinho-neto da Rita), do baú SEM MIM.
Ora, eu estou aqui, amanhã cedo pego a estrada sozinha e vou pra minha casinha. Em Pasárgada.
O primeiro jardim a gente nunca esquece.
O Pablo diz que um jardim é feito para o amanhã. O dele é das bromélias, já sabe o nome de todas. Tento imitar as “boas práticas”, como diz a Débora. E nos surpreendemos. Assim que o Pablo se apaixona pelas bromélias e começa a estudá-las e chamá-las pelo nome, Búzios se revela como berçário delas. Pra onde a gente olha tem bromélia. Ele vai mostrando e contando a história de cada espécie. Tem mexicana, americana, gigante, amarela. Aos poucos meus olhos vão aprendendo a distinguir umas das outras. Ele só gosta de nativas. Com as outras tem implicância. Recolhemos de caçambas de jardineiros, de restos de queimadas, e o Pablo lhes devolve a vida, acolhe, dá um lar pra elas. E ai de quem disser que elas são perigosas. Ele fica fulo (gostaram do “fulo”?) da vida. Com tanto ferro velho, com tanto imóvel abandonado, tanta rua sem saneamento básico, a culpa é das bromélias? Pererecas podem morar nelas com todo conforto, e até com filhotes. E o perereco na bromélia ao lado, tenho até fotografia provando isso.
Estou tentando me tornar uma jardineira de unhas feitas. Deve ter macetes tipo luvas. Queria ser aquela de filme americano que tem chapeuzinho, avental com bolsos e instrumentos, tudo fofo como sucede a fofura em filmes estadunidenses (melhor). E tenho que tomar cuidado com minha coluna vertebral, antiga espinha, a minha, que doi mas esqueço.
Pablo é jovem, sobe feito menino no coqueiro, sobe em árvores derrubadas, incendiadas no meio das cinzas, umas em cima das outras, é capaz de visualizar uma bromélia viva, no meio de escombros e recolhê-la.
Saímos, então, de carro, em busca de jardineiros jardinando e terrenos queimados. Voltamos com o porta-malas cheio de semimortas. Restos com raízes. Como nós.
Pelo caminhos meus olhos aprenderam a vê-las por todo canto, canteiros, enfeitando. E lá, onde não havia, surgem hortos, lojas de flores, arranjos, paisagistas, tudo que estava plasmado na nuvem ou imerso no inconsciente coletivo. Os ibiscos e flamboyants, que eram meio que a marca registrada da Região dos Lagos, continuam lindos e floridos, mas agora têm uma forte concorrente com seus encantos: bromélias nativas. Adoraria ser nativa, mais ainda uma bromélia.
De tanto passear em busca delas, rejuvenesço (ó! Tema proibido!). Mas a vida continua no Rio de Janeiro com trabalho, médicos, contas, pendências, um mundo sem bromélias. Chego e já começo instantaneamente a desfazer/refazer malas. A possibilidade de viajar de novo na próxima sexta me acorda do sonambulismo urbano. Quero ver o filme do Almodovar e aprender a falar com as mãos, no curso de LIBRAS. A Cidade Maravilhosa ainda me chama, cada vez mais baixinho.
Pelo caminhos meus olhos aprenderam a vê-las por todo canto, canteiros, enfeitando. E lá, onde não havia, surgem hortos, lojas de flores, arranjos, paisagistas, tudo que estava plasmado na nuvem ou imerso no inconsciente coletivo. Os ibiscos e flamboyants, que eram meio que a marca registrada da Região dos Lagos, continuam lindos e floridos, mas agora têm uma forte concorrente com seus encantos: bromélias nativas. Adoraria ser nativa, mais ainda uma bromélia.
De tanto passear em busca delas, rejuvenesço (ó! Tema proibido!). Mas a vida continua no Rio de Janeiro com trabalho, médicos, contas, pendências, um mundo sem bromélias. Chego e já começo instantaneamente a desfazer/refazer malas. A possibilidade de viajar de novo na próxima sexta me acorda do sonambulismo urbano. Quero ver o filme do Almodovar e aprender a falar com as mãos, no curso de LIBRAS. A Cidade Maravilhosa ainda me chama, cada vez mais baixinho.
Aldeia de pescadores em Geribá. Foi lá.
07/11/2011
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